sábado, 11 de fevereiro de 2012

Labirinto

Estava sentada à mesa de jantar com minha mãe. Olhei para o prato de comida e soltei um sonoro suspiro de dor. Imediatamente ela perguntou:
- Onde dói? Seu corpo tá doendo por conta dos exercícios físicos? - perguntou preocupada
- Não mãe! Antes fosse! Meu físico está ótimo, a dor que eu sinto é na alma.

O silêncio se instalou e logo tive uma epifania:

... Qual a razão para toda essa falta de fé, tristeza, desânimo? Por que essa medonha companheira, chamada dor, insiste em viver na minha cola? Todos tentam me dar os diagnósticos mais variados:
Os psicólogos acreditam que a raiz dos meus problemas está na minha falta de relação com meu pai. Nas consultas, quando me perguntam por minha família e digo que meus pais são separados, todos, sem excessão, atribuem minha personalidade de hoje a esse fato que segundo eles, marcou profundamente minha infância. Não tenho certeza se foi esse o motivo que desencadeou toda a crise, pois a minha infância foi ótima, mesmo com esse fato do qual eu não tinha plena consciência. Na minha adolescência é que talvez ele tenha ganho formas mais definidas, quem sabe só agora o inconsciente começou a tomar consciência do fato.
Todos os especialistas sentenciam: Sua solução é retomar laços com ele, procure-o! Mal sabem eles que ir atrás e receber de volta a indiferença é pior do que permanecer nessa inércia.
Já os médicos dizem que meu problema é depressão, causada não por relações familiares interrompidas, mas pela pressão do dia-a-dia, os meus neurotransmissores não estão sabendo lidar com a carga que é virar adulta e assumir a própria vida. Já me receitaram antidepressivos, ansiolíticos, mas nenhum deles me fez sentir melhor. Me recomendaram o relaxamento e a desaceleração da vida. Quando eles falam parece tão fácil. Para isso acontecer eu tenho que me livrar primeiro da inércia e do desânimo, isso eles não me ensinam. Como chegar ao fim que eles querem sem ter os meios?
Os religiosos da família dizem que meu problema é falta de missa e de oração. Dizem que se eu parasse mais de me preocupar com os "mistérios do que não pode ser entendido", eu me sentiria melhor. Já disseram que racionalidade demais não me fará entrar em contato com as divindades. Porém, não dá pra não pensar, não dá pra esquecer tudo o que está acontecendo e esperar que as coisas se resolvam, fingindo que minha alma está em paz quando tudo ao meu redor está fora do lugar.
Um quarto diagnóstico diz respeito à minha mediunidade e ao fato de eu estar em contato com o plano físico e espiritual, simultaneamente. O que acaba me deixando vulnerável a influências e trocas de energia com outros seres supostamente não tão evoluídos. Segundo os espíritas, eu deveria desenvolver e educar minha mediunidade, talvez assim eu me sentisse melhor e mais equilibrada.
E agora, José? Em meio a tantos diagnósticos e previsões, qual será a solução? Infância? Pressão da vida adulta? Falta de reza ou espiritualidade desequilibrada? Eu mesma já desisti de apostar no que quer que fosse... Quem sabe existe uma quinta causa/problema/solução/diagnóstico e que ninguém ainda percebeu. Isso é tão confuso quanto um labirinto, talvez eu tenha que ficar presa a isso por mais um bom tempo...

Entre silêncios e garfadas fui interrompida:
- Tá calada, tá tudo bem com você? - perguntou minha mãe
- Ah sim! Só estava tentando descobrir o quinto diagnóstico.
- Quinto, o que? - perguntou confusa
- Nada não! Termine seu jantar, vou ficar bem! Afinal é sempre isso que todos nós queremos, mesmo que uns tenham vocação para a felicidade e outros não.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sobre a glória do amor


Sempre fui de acreditar no amor, embora pagasse um preço caro por isso, afinal nem sempre dá pra ser feliz. Costumava viver minhas paixões de forma intensa, como se cada dia fosse o último, mas graças a uns bons tapas na cara percebi que nem sempre faziam o mesmo por mim.
Por muito tempo vivi pela metade, sentindo, mas não podendo expressar, afinal eu sabia que para algumas pessoas aquilo não faria diferença alguma. Até tive meus rompantes de desespero, mas adiantou alguma coisa? Não. Eles só passavam a me encarar como uma louca sentimental e carente.
Um dia cansei de tudo isso, decidi, a contragosto que deixaria essa coisa de amor pra lá, não perderia mais meu tempo com algo que só me trazia dor. Claro que algumas vezes o plano não dava certo e eu chorava sozinha. Porém, nada que pudesse me trazer maiores consequências. Amor é coisa de afortunado, não era pra mim.
Mesmo repetindo a mesma mentira e fazendo de tudo para acreditar nela, no fundo eu sabia que as coisas não eram tão fáceis. Eu precisava me livrar da nuvem negra que pairava minha cabeça, dar um pouco de luz a esse breu. Eu queria simplicidade, sorrisos e dias de sol.
Foi então que o conheci. No momento mais penoso ele me apareceu como aquele raio de sol depois de uma tempestade. No dia que o vi, mal podia imaginar que tudo o que eu precisava estava ali, com quem eu não trocava mais que um "Oi".
Ele resolveu me ver com outros olhos, eu o vi com outros olhos e assim nos encontramos, como se estivéssemos esperando um pelo outro por toda a vida.
Nosso encontro não parecia real, minha mente pessimista se recusava a acreditar. Porém, o medo se dissipou rápido. Ele trouxe a segurança que eu precisava para seguir adiante sem vacilar e nem me esconder em um canto qualquer da estrada. Ele me trouxe motivos para sorrir e secou minhas lágrimas.
Saborear o amor, pela 1ª vez na vida, sem o fantasma da mágoa foi reconfortante. Agora eu tenho um lugar onde me abrigar da tempestade, sem ter que correr na chuva em busca de proteção.
Dessa vez eu fui, sem medos, sem reservas, sem silêncios, de peito aberto e cara lavada ao encontro daquele que me trouxe a paz novamente, aquele que apagou todo o antes e constrói um durante e um depois gloriosos.

domingo, 21 de agosto de 2011

Miss You

Fiquei ali parada naquela noite esperando você chegar. Eu não tinha mais nada além da minha xícara de café e uma espera. Minuto a minuto eu olhava o relógio e pedia aos céus que tudo aquilo terminasse. Foram dias à espera pelo término daquela dor.
Meu coração doía. Uma dor pesada, aguda e constante. Eu não sabia se doía de saudade ou de raiva. Eu queria você ali comigo, me abraçando forte, mas ao mesmo tempo eu estava triste por você ter ido, justamente no momento que eu queria que você tivesse ficado. O que restava ali, parada naquela noite eram minhas lágrimas e uma sensação de incompletude e vazio. Como se estivesse faltando uma boa parte do meu coração e a que sobrou, chorava.
Será esse um modo de você me dizer que é livre? Um modo de dizer que vai, mas que volta e que eu tenho que aprender a lidar melhor com ausências. Não é de ontem que sofro por ausências, é de antes, como se houvesse uma predisposição genética.
Sabe querido, não sou mais a mesma desde que você chegou, estou mesmo muito diferente. Nunca tive medo de dar um basta ao que me incomoda, nunca tive medo de ser livre, nem sozinha, na verdade, solidão não é um dos meus maiores medos. Hoje a liberdade me parece uma das maiores prisões, eu já não quero ser livre, quero estar presa a você. Não quero uma liberdade que te tire do meu lado.
Aos poucos, bem aos poucos, fui aprendendo a dar continuidade à vida, aos poucos fui sabendo que existem coisas mais importantes que outras e que não cabe mais a mim cometer gestos tresloucados e extremos em nome de um "ideal", não cabe a mim podar liberdades... Aprendi em um processo doloroso de desapego que o amor que sentimos pelas pessoas só existe quando amamos como elas são e não como as concebemos em nossa mente. Ontem eu diria: "Não resisto, não suporto", hoje eu digo: "Paciência, o mundo é bem maior que meu umbigo e feito de algo maior que meus desejos pessoais".
Continuemos, vamos até onde o coração pede. Vamos até a próxima morte para enfim renascermos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um tiro no coração


A coisa mais triste que há no mundo é insistir em algo que está fadado ao fracasso. Insistir com fé no improvável, uma fé que nem eu mesma sei se existe, já que minha insistência pode ser um mero capricho de meu coração intranqüilo e sedento por felicidade.

Hoje mais do que nunca, sei que não adianta tentar, não adianta. Certas tentativas são quase como suicídios, como tomar veneno e morrer lentamente ou até mesmo dar um tiro no próprio coração. Por isso, é hora de deixá-lo partir, cortar esse laço invisível que nunca consegui romper.

Ele nunca vai se importar e eu nunca aprenderei a não me importar. Eu o persegui ao longo dos anos como um ideal de felicidade, como uma obsessão maníaca e doentia.

Ele não costuma demonstrar seus sentimentos, foge de tudo aquilo que represente envolvimento amoroso, é instável e abusa de uma falsa modéstia incrível. É maduro para as questões práticas da vida, mas um verdadeiro covarde para os assuntos do coração, se escondendo sempre atrás de uma máscara de “cara valente”. Cheio de recusas tolas e pensamentos egoístas. Vive dentro de um cubículo narcisista, cheio de vaidades e vontades nunca satisfeitas, pois as coisas nunca são suficientemente boas para lhe prender a atenção.

Ele se basta, eu sei. Como então insistir? Nada vai acontecer. Velhos hábitos nunca mudam. O melhor seria esquecer, sumir, negar, fugir. Para ele, não falarei de flores, de sol e de amor, não falarei de mim. A mágoa é amarga.

Viver de migalhas, sem plenitude, convivendo com longos períodos de silêncio e solidão não é mais pra mim. Não me contento mais com metades, sobras e restos.

Dessa vez, o tiro foi no coração. Em meio a uma luta desigual, onde só eu senti os golpes, onde só eu senti a dor. O que existe é o aqui e o agora, não um depois. O depois que nunca existiu e nunca existirá e que se resume a lágrimas e saudades.

domingo, 24 de julho de 2011

Doubt.

Era como se fossem Bentinho e Capitu. Só que ela era o Bentinho e ele a Capitu. A história deles não envolvia melhor amigo, filhos, nem prantos desesperados no velório. O único traço disso tudo que se assemelha ao romance Machadiano é a dúvida. Eterna e cruel dúvida.
Ela não tinha mais que meros indícios e desconfianças que no fim não tinham validade alguma se quisesse confrontá-lo, fazendo-o confessar a verdade. Ele tinha "olhos de cigano oblíquo e dissimulado". Ele é do tipo de pessoa de quem nunca se espera esse tipo de coisa. Ele é doce, gentil e carinhoso com ela, mas com uma falha de caráter... É capaz de desvirtuar qualquer discussão e colocá-la à seu favor, quando só ele é o culpado. Ele tem culpa, mas a faz pedir desculpas por ter "procurado" conhecer seu erro.
Juntos parecem um casal feliz, mas lá no fundo ela não acredita mais nele. Quanto a ele, bem, não há como dizer ao certo, ele não deve gostar dela tanto quanto diz. Ele já provou desses amores loucos que se tem pelo menos uma vez na vida. Ela também já provou, mas há uma linha tênue entre os dois. Ela conseguiu se livrar, ele não. Talvez ela esteja sendo mais uma dessas tentativas que todo ser humano faz, em busca do esquecimento. Ele jura que ela é a única. Ela nunca saberá se é verdade, tão fácil prometer e mais fácil ainda não cumprir. Talvez só o tempo prove quem é quem.
Ela não se sente um Bentinho da vida por uma mera questão de ciúmes de seu amado pensando em outra pessoa, vai mais além... Vai ao fundo, tocando suas piores memórias, memórias de quem sabe exatamente o que é tudo aquilo e onde vai terminar. Medo é o que ela sente, medo de estar sendo manipulada por ele e pelo "objeto de seu desejo". Naturalmente, ela descobrirá algo quando menos esperar, quando menos quiser ou precisar, exatamente como da primeira vez, no momento mais inoportuno e cruel, onde a dor será maior, onde a dor assumirá tamanhos desproporcionais, onde a dúvida, substituída pela certeza, a consumirá feito um monstro.

domingo, 12 de junho de 2011

Hiato

Difícil acreditar que ele exista. Parece que sou só dela, fruto apenas de seu amor. Para mim, ele tem um rosto, mas apenas o rosto de um velho conhecido que aparecia sempre para me abraçar no natal e no meu aniversário.
Um rosto que nunca esteve lá quando chorei, um abraço que nunca senti quando precisei. Um rosto "casual" que na verdade deveria ser tudo para mim.
Foram anos me acostumando a ver aquele rosto apenas no natal e no meu aniversário. Quando eu era criança ele me trazia uma boneca, me dava um beijo e tentava passar algumas horas comigo. É impressionante como ele sempre perguntava as mesmas coisas sobre mim. Eu sempre dava as mesmas respostas, mas parece que ele não as guardava, estava ali sempre cumprindo seu papel de "interessado" perguntando as mesmas coisas e nunca sabendo as respostas embora eu já tivesse falado. Era uma relação quase mecânica. Ele fingindo que se importa e eu fingindo que estava feliz com aquela "importância".
Só que ai eu fui crescendo e os hiatos ficando cada vez maiores, ele supôs então que eu não precisasse mais de presentes e minutos de 'atenção'. Quanto aos presentes, eu nunca me importei mesmo, já quanto à atenção...
Agora que sei como é a vida, preciso dele muito mais que quando era uma criança num mundo cor-de-rosa. É difícil às vezes lidar com choques de realidade sozinha...
E ele cadê? Cadê aquele rosto? Por que ele não vem? Eu já fui, passando por cima de um orgulho besta que nem eu imaginava que tinha, por que ele não faz o mesmo?
Não sei o que represento para ele, talvez nem me sinta parte dele e nem ele de mim, somos unidos apenas por laços sanguíneos que nesse caso específico não representa muita coisa. É tão surreal e ao mesmo tempo já me acostumei, acreditando que isso não vai mudar.
A única coisa que consigo sentir é um longo e silencioso hiato... Não me incomodo com isso normalmente, mas às vezes dói.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Happy Monday. Ou não.

Segunda-feira, um dia não muito querido pela maioria das pessoas. Um dia chuvoso como outro qualquer nas últimas semanas, detalhe esse que nem chega a ter tanta importância para alguns já acostumados à “garoa” maceioense.

Essa era uma segunda-feira diferente, definitivamente. A maioria da população de Maceió depende dos coletivos para se locomover, seja para o trabalho, faculdade, escola ou qualquer um de seus compromissos diários, mas hoje a cidade parou. Ninguém ia, ninguém vinha e quem conseguia a proeza de chegar ao seu destino era à custa de muito esforço, espremidos nos poucos ônibus, lotados, que ainda rodavam pela capital. Alguns ainda nem sabiam o que de fato estava acontecendo. Quando souberam, chocaram-se com o motivo da paralisação. Ninguém acreditava que os ônibus estavam sendo, novamente, alvo de ações criminosas onde um trabalhador tinha sido executado de forma tão cruel. Eles ainda não sabiam o que estava por vir.

Motoristas e cobradores das empresas de transporte urbano, Cidade de Maceió e Piedade fecharam ruas do Centro de Maceió e corredores do Conjunto Eustáquio Gomes em protesto pela morte de um cobrador que fazia a linha Ufal/Ipioca, assassinado no último sábado em um assalto, nos arredores da Cidade Universitária. Ou seja, 70% da frota da cidade estava parada. O caos reinou por completo. Era melhor desistir de trabalhar e se dar um dia de folga, não se ia mesmo chegar na hora, pra quê a pressa?

Nos perguntamos, por que ainda acontece esse tipo de coisa em um Estado onde as “autoridades competentes” julgam ser seguro para viver? O descaso com o transporte coletivo é claro, com a segurança pública, nem se fala. Vivemos todos um clima de terror, onde andar na rua e pegar um ônibus virou atividade de risco, já que não se sabe se teremos nossos pertences levados, ou pior, se voltaremos para casa. Cobradores e motoristas então, devem viver em clima de tensão permanente.

Alguns se desesperam por não conseguir chegar ao seu destino, outros já desistem no meio do caminho. Lutei firme e forte para chegar ao trabalho, após 2 horas e meia consegui percorrer um caminho que levaria no máximo 40 minutos, tudo dentro de um ônibus que parecia comportar toda Maceió dentro dele.